Qual é a relação do Straight Edge com a politica ?

 

A relação entre o sXe e a política é basicamente a mesma que ocorre no resto do punk rock. Uma postura liberária e crítica ao status quo e aos valores da sociedade está quase sempre presente, e quando bandas ou pessoas assumem uma posição mais definida ou militante, é quase sempre nos quadros do socialismo ou anarquismo. O que acontece também é que a mentalidade de cada lugar se reflete no sXe, e isso diz respeito tanto aos costumes do país, quanto às tradições da cena punk local. Por exemplo, no Brasil, o cenário Straight Edge tem a tradição de ser mais politizado do que na maioria dos outros países, em especial os EUA. Isso talvez se dê pelo facto de que toda a cena punk no brasil sempre foi mais politizada que a dos EUA, além do facto de que por aqui as contradições sociais são mais evidentes.
É um erro afirmar que "todo straight edge é anarquista", ou "todo straight edge" é militante de esquerda ou qualquer coisa do tipo. Mas a afirmação de que "straight edge é fascista", é simplesmente absurda. Uma revista semanal, por exemplo, chamou os sXe de fascistas por causa de uma suposta acção directa (que nunca ocorreu) na qual pessoas teriam sido trancadas dentro de um bar... ridículo e mentiroso. Outra matéria, no site tanto-faz.com, faz a mesma acusação de fascismo, desta vez porque "há diversos casos de Mc Donalds apedrejados". Qualquer avestruz de inteligência mediana percebe que trata-se de estupidez ou má intenção pura e simples. Como quando o presidente Fernando Henrique Cardoso acusa o MST de fascismo… Enfim, o termo se transformou numa palavra usada por qualquer um, contra qualquer um, sem o menor rigor ou cuidado. Sem falar que se fascismo é apedrejar corporações multinacionais que exploram o ser humano, destroem a natureza e movem processos milionários contra activistas que ousam expor os seus crimes. Parece óbvio, mas as pessoas continuam escrevendo essas coisas.
O facto é que, salvo raríssimas excessões (sempre altamente boicotadas e odiadas), quase sempre que bandas ou zines Straight Edge falam sobre política, esta se encontra em algum lugar da extrema esquerda.
Algumas bandas Straight Edge altamente politizadas no passado foram a holandesa Lärm (primeira banda sXe da Europa e primeira banda sXe comunista do mundo, formada em 82 e junta até 87) e as bandas decorrentes de sua formação, como Profound, Manliftingbanner e Seein Red. Por influência desta"mini-cena" holandesa, o chamado "Red Edge" (apelido do "sXe comunista") foi muito popular na Europa no início dos anos 90, com outras bandas como Feeding the Fire (Holanda), Spawn (Alemanha), Timebomb (Itália) e Manifesto (Espanha) aderindo, e diversos zines falando sobre o assunto. Na mesma época, a banda belga Nations On Fire também dava o que falar com suas excelentes letras de cunho anarquista altamente politizadas e bem escritas. Mesmo entre as bandas Norte-Americanas dos anos 80, em especial os Youth of Today, havia sempre uma ou outra mensagem política, nem que fosse simplesmente anti-fascista.
Os Youth of Today, apesar de serem difamados como uma "banda superficial", que só falava sobre Straight Edge e amizade, foi de facto uma banda que abordou muitos temas políticos/sociais, de maneira relativamente aprofundada (em comparação com o hardcore americano da época), influenciando muita gente. O LP "We're Not In This Alone", de 88, por exemplo, aborda o anti-fascismo, em "Prejudice", o anti-nacionalismo em "Live Free", o vegetarianismo (qua na época ainda não era tão popular), em "No More" e diversos outros temas importantes.
Posteriormente, no início dos anos 90, apareceram nos EUA e Canadá, uma série de outras bandas ligadas ao sXe extremamente politizadas, tais como os canadenses do Chokehold (sempre críticos, nem que arrumassem brigas com a ala mais "complacente" do hardcore), e as bandas ligadas à gravadora californiana Ebullition (em especial o Downcast).
Ultimamente, com o hardcore/punk em alta na mídia, discos vendendo como água, internet e uma série de outros fatores, nota-se uma despolitização, apatia e um desinteresse consumista em boa parte do cenário punk (no sentido amplo da palavra) mundial. Esta apatia e esse consumismo acaba refletindo-se também na cena Straight Edge, e cabe a cada um de nós reverter essa situação e fazer do punk uma força efectiva de mudança social, independente daquilo que bebe ou deixa de beber.

 

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